Rua dos Combatentes da Grande Guerra | Razões da toponímia vila-realense
«Outro [ofício] da Liga dos Combatentes da
Grande Guerra pedindo a esta Comissão Administrativa para dar o nome da “Rua
dos Combatentes da Grande Guerra” a uma das ruas d’esta cidade que não tenha a
si ligadas tradições ou não represente homenagem. Foi resolvido por unanimidade
dar o nome de Rua dos Combatentes da Grande Guerra à Rua Central d’esta cidade
devendo dar-se conhecimento d’esta deliberação ao senhor Conservador do Registo
Predial, à referida Direcção e bem assim afixar-se editaes no sentido
indicado.»
Fonte:
Atas da Câmara Municipal de Vila Real – Sessão de 16/10/1926 | CT:
AMVR/ALL-CMVR/B/A/001/Lv075
Portugal e do Regimento de Infantaria 13 na Primeira Guerra Mundial
A participação de
Portugal na Primeira Guerra Mundial
constitui um capítulo marcante da história nacional, refletindo tanto o
contexto político da época como o espírito de sacrifício de milhares de
portugueses. Entre as várias unidades mobilizadas, destacou-se o Regimento de
Infantaria n.º 13, cuja ação simboliza a coragem e a dureza vividas pelos
soldados portugueses nas frentes de combate.
Portugal na
Grande Guerra
Portugal entrou
oficialmente no conflito em 1916, ao lado dos Aliados, numa decisão influenciada
por fatores políticos, diplomáticos e estratégicos. A jovem República
Portuguesa, instaurada em 1910, procurava afirmar-se internacionalmente e
defender os seus territórios coloniais em África, particularmente em Angola e
Moçambique, face às ameaças alemãs.
No contexto europeu,
Portugal organizou o Corpo
Expedicionário Português (CEP), enviado para a frente ocidental, sobretudo
para a Flandres, no norte de França e Bélgica. Os soldados portugueses
enfrentaram condições extremamente difíceis: frio intenso, lama constante nas
trincheiras, escassez de recursos e um inimigo experiente.
O Regimento de
Infantaria n.º 13
O Regimento de
Infantaria n.º 13, aquartelado em Vila Real, foi uma das unidades integradas no
esforço de guerra português, tendo participado com o Batalhão de Infantaria 13,
integrando a 5ª Brigada e a 2ª Divisão do Corpo
Expedicionário Português. Composto maioritariamente por homens oriundos do
norte do país, este regimento foi mobilizado para integrar o CEP e enviado para
a frente europeia.
Os militares do Batalhão de Infantaria n.º 13, tal como os restantes contingentes portugueses,
enfrentaram uma realidade brutal nas trincheiras. A vida quotidiana era marcada
por bombardeamentos constantes, ataques com gás, doenças e desgaste físico e
psicológico. Apesar destas adversidades, demonstraram resistência e sentido de
dever.
A Batalha de
La Lys
O momento mais
dramático da participação portuguesa na guerra ocorreu a 9 de abril de 1918,
durante a Batalha de La Lys. As
forças alemãs lançaram uma ofensiva massiva contra as posições do CEP,
apanhando muitos soldados portugueses exaustos e mal preparados devido à falta
de rendição e apoio logístico.
O Regimento de
Infantaria n.º 13 esteve envolvido neste contexto de combate intenso. Tal como
outras unidades, sofreu pesadas baixas, com muitos mortos, feridos e
prisioneiros. A resistência portuguesa, ainda que insuficiente para travar o
avanço alemão, ficou marcada por atos de bravura e sacrifício.
Herói nesta batalha
foi o soldado Aníbal
Milhais, natural de Murça, que, aninhado em local estratégico, junto a um
canal e uma ponte, aí permanece a cobrir a fuga de Portugueses, nomeadamente o
seu pelotão, e Escoceses, sustendo os alemães durante quatro dias, sozinho e,
ao que se conta, sem comer.
Aníbal «Milhões»
(como passou a ser conhecido, depois do seu comandante ter afirmado: «Tu és Milhais mas vales milhões.») será o único praça do Exército Português na Grande Guerra a receber a mais alta condecoração: a Torre e
Espada de Valor e Mérito.
Memória e
legado
A participação de Portugal
na Primeira Guerra Mundial deixou marcas profundas na sociedade portuguesa. O
esforço de guerra contribuiu para o agravamento da instabilidade política
interna e teve um elevado custo humano.
O Regimento de
Infantaria n.º 13 permanece na memória coletiva como símbolo da entrega dos
soldados portugueses. Os homens que nele serviram representam uma geração que
enfrentou uma guerra distante, em nome de um país que procurava afirmar-se no
cenário internacional.
Recordar a sua
história é também homenagear todos aqueles que, em circunstâncias extremas,
cumpriram o seu dever com coragem e dignidade.

