As enigmáticas ânforas de Manuel Rosa no Largo de São Pedro
Quem passa pelo Largo de São Pedro, em Vila Real, é
frequentemente atraído pela imponência da igreja que domina aquele espaço
histórico da cidade, a igreja paroquial de São Pedro.
No entanto, entre o templo e o miradouro voltado para o Largo
Almeida Garrett, encontram-se duas esculturas em bronze que, apesar da sua
discrição, constituem um dos mais interessantes exemplos de arte pública
contemporânea em Vila Real.
Trata-se de duas ânforas antropomórficas da autoria do escultor português
Manuel Rosa, obras que conjugam memória, simbolismo e diálogo com o espaço
urbano.
Um escultor de referência da arte contemporânea portuguesa
Nascido em Beja, em 1953, Manuel Rosa pertence à geração
de escultores que contribuiu para a renovação da escultura portuguesa nas
décadas de 1980 e 1990.
Licenciado em Escultura pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, em
1978, trabalhou nos seus primeiros anos ao lado de João Cutileiro, um dos mais
influentes escultores portugueses do século XX. Participou em importantes
simpósios internacionais de escultura em pedra e realizou a sua primeira
exposição individual em 1984, na Galeria Módulo, em Lisboa.
Ao longo da sua carreira desenvolveu uma linguagem artística muito própria,
marcada pela simplificação das formas, pela utilização de materiais como a
pedra, o bronze, o metal e o vidro, e por uma constante procura de referências
arcaicas e intemporais.
A crítica de arte tem destacado na sua obra a ligação à escultura
primitiva, às culturas mediterrânicas antigas e à relação profunda entre os
materiais e o lugar onde cada obra é instalada.
As ânforas antropomórficas
As esculturas existentes no Largo de São Pedro são
habitualmente descritas como duas ânforas antropomórficas em bronze.
A palavra “antropomórfico” significa que um objeto assume
características humanas. Neste caso, a tradicional forma da ânfora - recipiente
utilizado desde a Antiguidade para armazenar vinho, azeite ou água (tão presentes
na Região Duriense) - é transformada numa espécie de corpo humano estilizado.
Não existem, até ao momento, interpretações públicas conhecidas do próprio
artista sobre estas esculturas em particular. Contudo, a sua linguagem
escultórica permite compreender algumas das ideias que parecem estar presentes
na obra.
As duas peças evocam corpos silenciosos e quase totémicos. Não representam
pessoas de forma direta, mas sugerem a presença humana através de formas
reduzidas ao essencial. São esculturas que parecem pertencer simultaneamente ao
passado e ao presente.
A ânfora, um dos objetos mais antigos da civilização mediterrânica, surge
aqui associada à memória coletiva, à preservação da identidade e à continuidade
histórica. Como recipiente, guarda conteúdos; como metáfora escultórica, parece
guardar memórias.
Também o facto de serem duas esculturas assume importância simbólica. O par
sugere diálogo, encontro e permanência, como se ambas observassem
silenciosamente a vida quotidiana que decorre naquele espaço da cidade.
Um diálogo com a história de Vila Real
O local escolhido para a instalação destas esculturas não poderia ser mais
significativo.
O Largo de São Pedro corresponde a uma das zonas historicamente mais
importantes da expansão urbana de Vila Real.
A igreja de São Pedro foi mandada erigir em 1528 por D.
Pedro de Castro, abade de Mouçós e protonotário apostólico.
Ao longo dos séculos, este largo tornou-se um espaço central da vida
social, religiosa e cultural da cidade.
É precisamente neste contexto histórico que as esculturas de Manuel Rosa
ganham particular significado. A sua aparência arcaica parece estabelecer uma
ponte entre diferentes épocas, reforçando a ideia de continuidade entre a
memória da cidade e a sua vivência contemporânea.
Mais do que simples elementos decorativos, estas duas esculturas
integram-se no lugar como presenças permanentes que convidam à contemplação e à
reflexão.
Um património artístico pouco conhecido
Apesar da sua qualidade artística e da relevância do seu autor, o conjunto
escultórico do Largo de São Pedro continua relativamente desconhecido para
muitos habitantes e visitantes de Vila Real.
A ausência de informação interpretativa no local faz com que muitos
transeuntes passem pelas esculturas sem conhecer a sua autoria ou o seu
significado.
Ainda assim, estas duas ânforas antropomórficas constituem um interessante
exemplo de como a arte contemporânea pode dialogar com espaços históricos,
enriquecendo a leitura da cidade e criando novas formas de relação entre
património, memória e identidade.
Na próxima visita ao Largo de São Pedro, vale a pena parar por alguns
instantes junto destas figuras silenciosas em bronze. Talvez seja então
possível descobrir nelas aquilo que Manuel Rosa tantas vezes procurou na sua
obra: a presença intemporal do humano nas formas mais simples.
