Museu Etnográfico de Vila Real


O Museu Etnográfico de Vila Real funciona nas instalações do Centro Cultural Regional de Vila Real, um solar do século XVIII, situado no centro da cidade de Vila Real.

Tempo de Desvendar

Ó Vila Real alegre
Província de Trás-os-Montes
No dia que te não vejo
Meus olhos são duas fontes

A primeira sala denomina-se Tempo de Desvendar pois através dela é-nos dada a vislumbrar uma panorâmica geral da identidade cultural da terra vila-realense, cujo distrito faz a súmula de Trás-os-Montes num mosaico paisagístico e humano caracterizado, ele próprio, por uma grande diversidade, fecunda de elementos patrimoniais e naturais que remontam a tempos antigos.

A breve visualização do mapa do distrito de Vila Real permite identificar alguma da massa geográfica que caracteriza esta região tão singular, facultando ao visitante valiosa informação sobre os principais pontos de interesse patrimonial e paisagístico do distrito, com evidente destaque para a sede do concelho.

Segue-se uma evocação do antigo Museu Etnográfico da Província de Trás-os-Montes e Alto Douro, onde um mosaico contempla as imagens mais antigas das salas de exposição do museu e, deste modo, em jeito de memorial saudosista, presta a merecida homenagem aos seus fundadores.

Ao fundo, ladeada por dois exemplares dos mais emblemáticos trajes Transmontanos - a croça e o burel - que guardam a entrada deste universo que se desvenda, uma imagem da Vila Real urbana alicerça-se a um trecho do cancioneiro popular que, deste modo, irrompe como epíteto que convida o visitante.

Tempo de Cultivar

Bem grande é o Marão,
Não dá palha nem grão...

O tempo dos cultivos é dedicado à temática da lavoura e sua importância para a subsistência de uma população rarefeita em zonas concentradas de solos magros e clima inóspito.

O lúgubre traje de trabalho, feminino e masculino, introduz um vislumbre da crua paisagem rural, legando-nos imagens do ciclo do pão, da sementeira à ceifa, perante a possante presença do arado, da grade e de um canastro de vara: três elementos que simbolizam a fecundidade e a abundância tão ansiadas.

Têm nesta sequência lugar os ofícios correlativos à lavoura, apresentando as ferramentas com que o ferreiro, o latoeiro, o tanoeiro, o cesteiro e o tamanqueiro transformavam o seu sonho em engenho.

Mas estes saberes da terra traduzem-se também em água, quando o lagar relembra o vinho do Douro e a fila de membros compassados; quando o elixir das lagaradas sarava um quotidiano sangrento medido em socalcos.

Da água depende também a produção do bragal doméstico, a partir da planta do linho, cujas voltas são ainda bem conhecidas das mulheres serranas de Agarez e Aveçãozinho.

Sendo o núcleo mais representado nas coleções do antigo Museu, fornece-nos elementos que permitem reconstituir todo o manancial de saberes inerentes ao ciclo completo, desde a arrinca à tecelagem.

Destaque para uma das peças emblemáticas da exposição: o engenho hidráulico, usar para maçar as fibras do linho, similar aos usados durante séculos movidos pelas águas dos rios e ribeiros.

Tempo de Evocar

Vila Marim das panelas
Bisalhães dos pucarinhos
Mondrões é dos mal-asados
Bisalhães dos bem feitinhos.

Nesta sala agrupamos o cariz simultaneamente sagrado e profano das feiras e das romarias, representadas pela evidência do seu traje.

Num primeiro momento exploramos o gesto do oleiro naquela que é uma das artes míticas da alma vila-realense e um dos seus mais disseminados postais de visita: os barros de Bisalhães, que a par da roda e dos instrumentos que lhe dão a forma imaginada no rosto cansado do oleiro, se estendem como um manto negro reluzente aos pés da Capela Nova.

Uma tradição que se mantém a par de outras que se esvaecem: o gado transacionado na feira de Santo António; o pulsar da juventude nas rusgas e bailes dedicados ao padroeiro.

Depois a alma lavada nas procissões, promessas e devoções que sobem aos montes cheias de luz, tão perto é o céu: em particular, a Senhora da Pena e a procissão de Santa Ana da Campeã, cujas miniaturas reconstitutivas se conseguiram recuperar do antigo acervo.

Tempo de Recriar

Boa noite, meus senhores
Somos de Vila Real
E vimos apresentar-vos
Folclore original

Original das aldeias
Deste rincão Transmontano
Onde o burel e a croça
São o traje do serrano

A última sala é dedicada à recriação dos momentos de lazer e recreio, contando para o efeito com as valências de miniauditório equipado com equipamento de projeção multimédia.

Não obstante a solenidade afeta ao carácter Transmontano, o seu universo recreativo não é de todo menos rico do que o imaginário simbólico de cariz devocional; antes o atravessa, o enriquece e lhe dá corpo.

O espólio apresentado pertence exclusivamente às recolhas efetuadas pelo Centro Cultural Regional de Vila Real, deixando antever exemplares de alguns jogos populares tradicionais e instrumentos musicais.

Em relação ao jogo, decidimos abordá-lo nesta exposição, atendendo à sua importância central para a compreensão da estrutura sociopedagógico, cultural e cognitiva do conceito de lazer e recreio de Trás-os-Montes.

No que concerne à música, as tunas - agrupamentos musicais bastante frequentes no distrito - ocupam um lugar de destaque, prestando-se ainda uma homenagem aos cantos e danças desenvolvidos pelo Rancho Folclórico de Vila Real: o cancioneiro popular e o vasto repertório musical que ambas as instituições salvaguardaram e difundiram para memória futura encontra aqui o seu lugar privilegiado de expressão.

Fonte: Texto e fotos retiradas de um folheto editado para a inauguração do Museu

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