VIII Feira do Bacalhau de Abambres – Mateus (Vila Real)
Nos próximos
dias 14 e 15 de Maio, vai
realizar-se a VIII Feira do Bacalhau de
Abambres, de acordo com o seguinte programa:
14 de Maio (Sábado)
07h30 - Passeio
BTT Epic GPS - Rota do Bacalhau de
Abambres
10h00 -
Abertura da feira com o Grupo Explosão
de Abambres
Artesanato e Produtos Agrícolas locais
12h00 - Almoço
na Tasca da Comissão
15h00 - Jogos
Tradicionais
16h00 - Merenda
19h00 - Jantar
na Tasca da Comissão
22h00 - Atuação do Conjunto Carlos Gaspar e Irmã
15 de Maio (Domingo)
08h00 - 1ª Caminhada
de Solidariedade de Abambres - Sorrir
para a Vida
10h00 -
Abertura da Feira
Mata-bicho
12h00 - Almoço
na Tasca da Comissão
18h00 - Encerramento da Feira
Ementa
- Bacalhau com
batata a murro
- Fêveras,
barrigas e fralda na brasa
- Punheta de
bacalhau
- Bacalhau de
Abambres
- Caldo de
cebola
*****
“O que é o “bacalhau de Abambres”?
A expressão “bacalhau de Abambres” não é seguramente
conhecida para além dum aro
geográfico que compreende o concelho
de Vila Real e alguns dos concelhos
limítrofes. Em termos gastronómicos até pode ser confundida como uma receita secreta de confeccionar
o chamado fiel amigo, mas, de facto,
não o é, nem tem aparentemente nada a ver com o peixe teleósteo gadioforme da família dos gadídeos,
proveniente dos mares do Norte da Europa e Terra Nova, do qual se podem comer óptimos
pratos confeccionados nos restaurantes da nossa freguesia.
Importa questionar a origem do termo e o porquê da sua
irradiação a partir deste
lugar.
Como é sabido Abambres é um lugar da freguesia de Mateus
e do concelho de Vila Real. É
uma povoação antiquíssima que já existia
antes da fundação do reino de Portugal. O documento mais antigo que
conhecemos, referente a um lugar da
freguesia de Mateus, datado de 8 de Julho
de 1101 e, através dele, Afonso
Alvites transfere uma propriedade (na “vila Avamores” situada “in Terra de Panonias discurrente rivulo
Corrago”) a favor da Sé de Braga (ao tempo
do Arcebispo D. Geraldo), sendo uma parte a título de venda e outra parte como resgate duma penitência imposta
a seu filho Mendo.
O chamado “Bacalhau de Abambres” mais não é que a vulgar
cebola, essa planta herbácea que dá
pelo nome científico de allium cepa e que não dispensamos nas nossas cozinhas, onde é
utilizada para vários fins, tais como refogados, assados, cozidos, etc.
Não sabemos desde quando é usado o termo, sendo certo que nas “Tradições populares e Linguagem de Vila Real”, publicadas na Revista Lusitana (vol. XI, p. 268, vol. X, p. 191, Vol. XII, p. 132) o termo não é referido.
Muito provavelmente o termo terá sido criado pelos hortelãos de Abambres e faria parte dos seus pregões nas feiras da região, no sentido de apresentar e fazer publicidade ao cebolo e à cebola que desejavam vender e que era uma das principais produções de Abambres. É sabido que na alimentação das famílias pobres a cebola ocupava um lugar especial, já que era comummente usada cozida com batatas, ou comida crua, partida às rodelas, ou “picada” com batata cozida (sem mais nada a acompanhar) e regada com azeite e vinagre. É sabido que já na Antiguidade a cebola era consumida pelos Assírios, nomeadamente pelos soldados, por ser tida como uma fonte de vigor.
Aqui, o termo terá sido usado em sentido algo pejorativo, pelo facto de a cebola rivalizar com o bacalhau que apesar de conhecido por “fiel amigo”, raramente ia à mesa dos pobres; daí, o facto, de os hortelãos de Abambres lhe passarem a chamar “o bacalhau de Abambres”, termo por que passou a ser conhecido. Muito provavelmente pode ter havido a intenção de diferenciar o cebolo e a cebola de Abambres, atribuindo-lhe qualidades que outros não teriam.
Refira-se que os praceiros de Abambres, numa actividade secular que durou até há algumas décadas atrás, vendiam o cebolo e a cebola, nos mercados de Vila Real e nas feiras e mercados da região, designadamente Vila Pouca de Aguiar, Pedras Salgadas, Campo de Jales, S. Martinho de Anta, Régua, etc.
Ainda nos tempos de criação do autor deste estudo existiam dezenas de praceiros em Abambres, onde se incluíam os seus pais, que demandavam os mercados da região para vender os seus produtos agrícolas onde se incluía a cebola. Dou conta de alguns, quer pelas alcunhas, quer pelos apelidos – os “Bilhacos”, os “Chilões”, os “Mecos”, “os Navalhos”, Jordão, Eira, Conde. O transporte era feito nas furgonetas de aluguer do Luís Reinolo, do Claudino Gonçalves, ou do Albino. Em tempos recuados, iam com os seus burros carregados com a designada “tenda”. Quando iam para Vila Pouca ou Jales, iam na véspera e iam dormir à Carrica, no início da recta de Vila Pouca, em algum palheiro ou cardenho emprestado.
O cebolo aqui semeado era vendido, de Abril a Junho, para plantar em molhos que tinham normalmente um cento. Se as plantas fossem um pouco maiores era vendido ao molho.
A cebola, apelidada de “Bacalhau de Abambres”, era vendida nas mesmas feiras, “enrastada” com recurso de palha de centeiro, em “cabos” de 25 pés; pelo contrário a cebola de Loivos (Chaves), que também era afamada, era vendida em cabos de 18 cebolas.
Exímio “enrastador” de cebola, em Abambres, era o Sr. António da Eira, conhecido por António Rolindo.”
Provavelmente, em razão da grande concorrência enfrentada com a cebola de Loivos, os praceiros de Abambres criaram a expressão ”Bacalhau de Abambres”, para afirmar a supremacia desta sua produção.”
É de referir a grande crença dos praceiros de Abambres, no seu padroeiro e protector Santo Isidro, venerado na sua capela de Abambres, num culto que remonta às primeiras décadas do século XX. Daí o facto de, ainda hoje, o andor carral de Santo Isidro, puxado por uma junta de bois maroneses, na festa que se realiza no mês de Agosto, fazer alusão aos produtos agrícolas aqui cultivados, designadamente a cebola, o pão (milho) e o vinho”
Excerto da autoria de António
Conde, retirada da comunicação “Mateus:
sua terra e suas gentes”, apresentada na Sede da Junta de Freguesia de
Mateus, em Junho de 2013. (com autorização do autor)
Uma explicação para a origem da expressão:
A designação “bacalhau de Abambres” dada às cebolas
terá tido origem há muitas dezenas de anos, ou mesmo uma centena.
Um dia, um filho
perguntou à mãe o que iria ser o almoço ou o jantar.
A mãe respondeu-lhe:
- “Batatas com bacalhau.”
Naquele dia, o
rapaz comeu e calou.
No dia seguinte,
verificou-se a mesma situação. O filho perguntou, a mãe deu-lhe a mesma
resposta. O rapaz comeu e nada mais disse.
Ao terceiro
dia, o rapaz viu uma vizinha a trabalhar a terra e a arrancar algumas
sementeiras.
Ao ver o que a vizinha
estava a fazer, o rapaz exclamou:
- “Ai que lindos bacalhaus!”
A vizinha ficou
muito admirada com o nome que o rapaz deu ao que ela estava a arrancar.
Um pouco mais
tarde, ao encontrar a mãe do rapaz, a vizinha perguntou-lhe:
- “O teu filho não sabe o que é bacalhau? É que
ele viu-me a arrancar cebolas e disse: “Ai que lindos bacalhaus!”
De imediato, a
mãe do miúdo respondeu-lhe:
- “Sabe, vizinha, para nós cebolas são o
bacalhau que podemos comer.”
Explicação
disponibilizada por Duarte Pinto no FB (texto editado e adaptado)
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