Camilo por terras de Vila Real: Roteiro
Fonte: “Camilo por terras de Vila Real – Antologia Breve”, organização de A. M. Pires Cabral, edição da CM de Vila Real, no âmbito das Comemorações do Bicentenário de Camilo Castelo Branco, 16 de março de 2025. (Negritos do Escarpas do Corgo)
Notas (recolha feita pelo Escarpas do Corgo):
1.- "(...) E a 28 de Abril desse ano [1847], provavelmente recomendado por José Passos, Camilo é admitido como amanuense do Governo Civil pelo respectivo titular, Dr. Tomás Maria de Paiva Barreto, afecto à Patuleia.
A 30 de Junho o Convénio de Gramido põe fim à Maria da Fonte com a
derrota da Junta do Porto, e o novo governador civil de Vila Real, Dr. José
Cabral Teixeira Morais, cabralista, intima-o a despir a manga-de-alpaca e a
pôr-se no olho da rua.
Camilo rapa da pena e começa a zurzir o déspota nas gazetas: José Cabral Teixeira de Morais, governador
civil de Vila Real – esse seminário de estupidez e de imoralidade, o pesadelo
em despotismo – dorme o sono do crime, mas o braço que há-de acordá-lo vela
sempre.
O Governador Civil dá ordens ao “Olhos de Boi” para “partir um braço ao
gazeteiro”.
Com data de 23 de Agosto de 1847, Camilo conta no “Nacional” o que lhe
aconteceu: “Da porta do governador civil, no dia 17 do corrente, pelas 10 horas
da manhã, saiu um homem armado de cacete, espancou-me, deitou-me por terra e,
recolhido outra vez à casa donde saíra, apareceu com uma espingarda, e com um
desgarre insultuoso, à porta de S.ª Ex.ª. Entregue às mãos do assassino, ainda
agora tremo da posição em que estive quando sei evidentemente que José Cabral
tinha dito ao caceteiro: – mata-o! –
E porquê? José Cabral confessa que à sua
ordem eu fui espancado e dá a razão deste delito, porque eu não lhe tirara o
chapéu, tendo-o o visto à sua janela. (…) Como autoridade, que direito tem
sobre o meu chapéu?”
Camilo continua com as crónicas. E o “José das Bolas”, alcunha do Governador Civil, manda-o agredir de novo. (...)" In O rapto de Patrícia Emília, Bento da Cruz, Revista Tellus, nº 49
2.- "(...) Para a ajudar à festa, também um grupo de 11 sargentos do Batalhão de Caçadores 3, aquartelado em Vila Real, o agrediram violentamente e em plena rua, a murros e pontapés.
Valeu-lhe a intervenção dum outro sargento do mesmo corpo, Tomás António Neves e Sousa, que lhe acudiu, não por humanidade ou simpatia, mas para que a sua namorada, que estava à janela, visse como ele era valente e destemido. Motivo? Durante a Maria da Fonte, no chamado Desastre de Valpaços, dois regimentos de infantaria, o 3 e o 15, que lutavam sob as ordens de Sá da Bandeira, patuleia, passaram-se às hostes do Barão do Casal, cabralista. Camilo verberou-lhes a cobardia e a traição nos jornais. Os dois regimentos em peso juraram vingança.(...)." In O rapto de Patrícia Emília, Bento da Cruz, Revista Tellus, nº 49
3.- "Camilo Castelo Branco, no romance "O Esqueleto", de 1865, conta brevemente a história do Santo Soldado, dando-o como condenado por desertor no ano de 1811.":
"(...) A franceza, quando ia caminho do Vidago, pernoitou em Villa Real. Ao arraiar da manhã, cavalgou, e fóra da villa, n'uma esplanada de monte, chamado o «Arcabuzado» parou a examinar um mau retábulo, em que um pincel de 1811 contava á posteridade o caso triste do espingardeamento de um soldado desertor, cinco minutos antes de chegar de Lisboa o pai do padecente com o perdão da junta governativa. Este infausto successo contou-lh'o, em frente do painel, um mancebo, que desde a hospedaria a seguira, sobre o seu irrequieto cavallo. (...)"


