As primeiras Visitas Pastorais de D. João Evangelista de Lima Vidal, Arcebispo-Bispo de Vila Real, foram às Paróquias de S. Dinis e de S. Pedro – Vila Real
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D. João Evangelista de Lima VidalIlustre Arcebispo-Bispo de Vila Real e primeiro Prelado daquela Diocese |
Ao
mesmo tempo que D. João Evangelista
procurava organizar o centro da administração diocesana, dotando-o de todos os
elementos necessários e exigidos pelo direito canónico, não esquecia as
paróquias do Bispado e os seus problemas.
O
prelado iniciou, no dia 11 de Novembro
de 1923, a visita pastoral à vasta e acidentada Diocese e principiou-a pela
freguesia de S. Dinis, cuja
paroquial era a sé.
Apóstolo
da caridade e amigo dos pobres, não quis descer do púlpito sem lançar uma
ideia, encetar uma obra oferecer aos abastados um poderoso meio de santificação
e dar aos indigentes um conforto e um alívio.
Ainda
há pouco chegou a esta cidade episcopal - lia-se n'O Anjo da Diocese - mas
já viu bastante miséria; é necessário, exclamou, que de hoje para o futuro, nesta
terra, nenhum pobrezinho veja cair sobre o seu tugúrio o véu escuro da noite,
sem ter tomado nesse dia ao menos, uma sopa quente.
Foi
assim que nasceu a Sopa dos Pobres -
essa simpática obra que almas generosas e boas logo acarinharam e que ficaria
como «poética, bela e santa recordação da sua primeira visita pastoral à
primeira paróquia da Diocese.»
No
domingo seguinte [18 de Novembro de 1923]
foi a vez da paróquia de S. Pedro,
também da cidade de Vila Real.
E,
depois destas visitas, seguiram-se idênticos trabalhos por toda a área do
bispado, em que também incluía as idas às cadeias, aos hospitais, às casas dos
doentes e a outras instituições; Lima Vidal apenas os suspendeu desde 3 de
Agosto a 1 de Outubro de 1924, altura em que presidiu a uma peregrinação ao Santuário de Nossa Senhora de Lurdes, na
França, e descansou em Eixo.
As
visitas realizavam-se tanto aos domingos como nos dias de semana, num esforco
exaustivo, ora viajando de com- boio, ora de automóvel até onde as estradas o
permitiam, ora a cavalo por caminhos difíceis, ora a pé por não ser possível de
outra forma.
Esteve
em povoações que não lembravam a presença de qualquer bispo no meio delas, ou
que apenas, vagamente guardavam a santa recordação do venerável D. Frei Bartolomeu dos Mártires; por
toda a parte era carinhosamente recebido e extraordinariamente saudado.
Que
episódios ingénuos se poderiam evocar dessas horas que enchiam de felicidade o
coração do pastor?!...
Que
momentos de simplicidade aldeã passados entre os povos perdidos nas serranias,
desde a fronteira galega até às margens durienses?!...
Num
tal ponto de uma estrada, lá para o norte, encontrou-se certa vez com um homem
que tinha sido encarregado pelo pároco de esperar o arcebispo.
-
Você é que é o ti Bispo? - perguntou-lhe.
-
Sou - respondeu prontamente Lima
Vidal.
-
Então, saia dai p'ra fora.
D.
João Evangelista obedeceu à ordem que lhe era dada.
-
Tem aqui uma burra - continuou o
homem. Pinche p'ra riba. Olhe que ela
pode nem que seja c'o diabo. Tome cuidado, que ela é pouco honrada...
E
lá se foi caminho fora, montado numa possante alimária mas com as devidas
precauções, ao encontro dos diocesanos.
Lima Vidal evocava estes e outros factos, tantas vezes com laivos dramáticos, que na montanha lhe sucediam quando, à procura das almas, andava a cavalo: - «Embora eu preferisse sempre um destes velhos corcéis que já não estão para bravuras nem correrias, ou outras montadas ingénuas e pacientes, davam-me amiudadamente cavalos fogosos, prontos para o disparate a todo o momento; diziam que assim melhor figura faziam os povos. [...] Está-se a ver o perigo em que me metiam: os cavalos, às vezes, alarmados pelo estrondo, julgando-se ameaçados pelas braçadas de flores que atiravam de todos os lados ao improvisado picador, não queriam saber do freio nos dentes e abalavam por aí ao desatino».
In “Lima Vidal no seu tempo”, João Gonçalves Gaspar, Edição da Junta Distrital de Aveiro, 1974 (texto editado) | Imagem: "Illustração Catholica" - 18 de Fevereiro de 1928

