Cruz Vermelha, história da sua instalação em Vila Real

O Povo do Norte, Vila Real, 20 de fevereiro de 1916

“ (…) Vila Real iria enfrentar na segunda metade da década de 1910 a partida dos seus filhos para a Grande Guerra, com as consequências que se adivinhavam; uma gravíssima epidemia; e os efeitos das incursões monárquicas no Norte, que, pela primeira vez. trouxeram até nós o troar dos canhões.

Naturalmente que Vila Real, com uma imprensa pujante desde 1873, acompanhou a ação da Sociedade Portuguesa da Cruz Vermelha, instituição fundada em 4 de maio de 1887 e sucessora da Comissão Portuguesa de Socorros a Feridos e Doentes Militares em tempo de guerra (fundada em 11 de fevereiro de 1865, na sequência da 1ª Convenção de Genebra realizada no ano anterior, em que participara um representante de Portugal, o Dr. José António Marques).

Chamados a apoiar as iniciativas cada vez mais frequentes da humanitária sociedade, a Câmara Municipal, outras instituições locais ou regionais, e pessoas a título individual (beneméritos locais, na sua maioria empresários e capitalistas a residir no Brasil, com fortes ligações a Vila Real) inscreveram-se como associados e contribuíram financeiramente para as ações que, à semelhança de outras estritamente locais, estavam sempre presentes no dia-a-dia da sociedade vila-realense, que, mobilizada pela imprensa, as acolhia generosamente.

Exemplos como a das inúmeras instituições de solidariedade social criadas no séc. XIX, de que destacaríamos o Hospício, organismo que sucedeu à Casa da Roda, as Corporações de Bombeiros Voluntários, os médicos de Partido, os cordões sanitários estabelecidos em tempos de epidemia, a Comissão Trasmontana de Socorros, organizada em Lisboa para apoiar a pobreza envergonhada no concelho de Vila Real, a récita extraordinária que se realizou em benefício dos sobreviventes do Ribatejo (terramoto de 23 de Abril de 1909), as subscrições a favor das famílias das vítimas do trágico incêndio do Teatro Baquet, no Porto, em 1888, ou ainda a récita no Teatro Circo de Vila Real, em 6 de Fevereiro de 1896, em benefício da Sociedade Portuguesa da Cruz Vermelha, realizada pela Companhia Dramática Portuguesa sob a direção do ator António Baptista Rocha.


Partida para a Grande Guerra do Batalhão do RI 13, Vila Real, 21 de abril de 1917

Naturalmente que o arquivo da Câmara Municipal regista a entrada de muitos pedidos de apoio a campanhas nacionais e Vila Real será palco de iniciativas de recolha de fundos para delegações da Cruz Vermelha já instaladas em concelhos próximos, como é o caso do projetado espetáculo a levar a efeito, a favor dela própria, pela 6ª Delegação (Gondomar), com sede em Rio Tinto, que, para preparar o mesmo espetáculo, aqui desloca dois sócios ativos no dia 30 de outubro de 1915.

Vila Real, que tinha já várias pessoas inscritas como associadas na Cruz Vermelha, desperta finalmente, com pretexto nesta última ação, para a importância de ela própria dispor de uma delegação.


Propaganda de um espetáculo a favor da Cruz Vermelha, Vila Real, 6 de fevereiro de 1896

As reuniões nesse sentido sucedem-se a partir de Novembro desse mesmo ano e em 10 de Janeiro de 1916, no salão nobre da Associação dos Bombeiros Voluntários de Salvação Pública, tem lugar uma reunião presidida pelo Dr. António José da Costa Sampaio e secretariada pelos Srs. Joaquim Botelho, 2º sargento do RI 13, e José dos Santos Barreira, farmacêutico, em que participam, para além de numerosa assistência, a Câmara Municipal, o Hospital, as duas Corporações de Bombeiros e diversas confrarias, e se discutem as bases para o estabelecimento da referida delegação, que a Direção Central, recebida a ata da reunião, de imediato autoriza.

No dia 22 de janeiro do mesmo ano é escolhida a direção da Comissão Organizadora da Delegação Distrital de Vila Real, que tomará posse no dia 27 do mesmo mês, sendo constituída pelas seguintes pessoas: presidente, Dr. José Coelho Mourão; vice-presidente, Rodrigo da Nóbrega Pinto Pizarro; secretário, José dos Santos Barreira; tesoureiro, Padre Filipe Correia de Mesquita Borges (considerado a «alma da Delegação» distrital); vogais, Francisco Maria Pereira Araújo, Ilídio Ruas, Francisco Augusto dos Santos Mesquita, Dona Zara de Carvalho Araújo e Dona Maria Guedes Mourão.


Cartão de associado

O Dr. António José da Costa Sampaio assume a responsabilidade pelo corpo ativo (Companhia nº 10).

Abre-se uma campanha de novos associados e promove-se o convite para alistamento do pessoal das ambulâncias («ambulância» significa um destacamento de socorros com médicos e um pequeno hospital de campanha).

O Dr. Henrique Ferreira Botelho, médico como o Dr. António Sampaio e a quem posteriormente competirão novas responsabilidades, põe à disposição para sede da Delegação uma das dependências do seu consultório, na altura instalado no Palacete Torres.

Sob o entusiasmo de toda a imprensa local, a bandeira é finalmente hasteada no dia 20 de fevereiro, na sua primeira sede, na Rua Serpa Pinto, no 1° andar do edifício onde mais tarde funcionará o Café Excelsior, propriedade do Sr. Joaquim Augusto Ferreira, vereador da Câmara Municipal e importante comerciante de fazendas.

Os apoios de natureza financeira sucedem-se e a Delegação Distrital de Vila Real conhecerá até ao fim de 1919, princípio de 1920, altura em que se extinguirá (deslocando-se a Vila Real os Srs. Túlio da Mota e Ernesto da Fonseca, respetivamente tenente e alferes da Delegação de Viana do Castelo, o primeiro deles igualmente responsável pela direção e meios postos à disposição em Vila Real por ocasião da gripe pneumónica, para tomarem conta do material da extinta delegação que, tudo leva a crer, muito cobiça despertara), um período intenso de atividade, destacando-se o apoio aos militares envolvidos na Grande Guerra e suas famílias.

A ação desenvolvida aquando da gripe pneumónica, epidemia que motivou a presença em Vila Real do Presidente da República, Doutor Sidónio Pais, nos dias 24 e 25 de Setembro de 1918, numa altura em que estavam declarados aproximadamente dois mil casos e faleciam em média vinte pessoas por dia; e as incursões monárquicas no Norte, nomeadamente o combate de Parada de Cunhos no dia 7 de Janeiro de 1919, altura em que a Cruz Vermelha arvorou a sua bandeira no Hospital, instalou um posto de socorros nas casas da embocadura norte da ponte de Almodena e assistiu os feridos na linha de fogo. (…)

Extinta a delegação, manteve-se o apoio dos vila-realenses à Cruz Vermelha Portuguesa, nome que a instituição passou a ter a partir de 1924.

Sob a presidência do Sr. Fernando Ferreira Borges, a Delegação Distrital reinstala-se em 1977, sob o pretexto da grande operação nacional de apoio à chegada, instalação e encaminhamento dos portugueses regressados das colónias.

Sucederam-se como presidentes o Professor Doutor Fernando Nunes Ferreira Real e o Dr. Armando Afonso Moreira, este último responsável por um programa de trabalho de que se destacam realizações como a abertura de 13 novos Núcleos no distrito, a instalação da sede em edifício de sua propriedade, o voluntariado junto do Centro Hospitalar Vila Real – Régua e a instalação de um Centro de Fisioterapia e Reabilitação Física.”

Fonte: Folheto da Exposição “Cruz Vermelha, história da sua instalação em Vila Real” – 12 de maio a 30 de junho de 2005

Sugestões:

Mensagens populares deste blogue

Tripas aos molhos | Receita original de Vila Real

Os «Brocas» e a genealogia de Camilo Castelo Branco

D. Pedro de Meneses, 1º Conde de Vila Real e Governador de Ceuta

A Freguesia de Andrães vista cerca de 1943

Joelho da Porca | Gastronomia de Vila Real

Guiães foi fundada por D. Sancho I em 1202 (8 de Abril)

Convento de Santa Clara - Vila Real

Vila Real, a primeira terra portuguesa com luz elétrica

Nossa Senhora da Pena e o milagre descrito em 1752

«Operário Futebol Club» - Vila Real