Stuart Carvalhais - Gente da nossa Terra!


José Herculano Stuart Torrie de Almeida Carvalhais, conhecido por Stuart Carvalhais, nasceu em Vila Real, a 7 de Março de 1887, e faleceu em Lisboa, a 2 de Março de 1961, no Hospital de Santa Maria.

Foi um artista português multifacetado: fez carreira sobretudo como pintor, desenhador, ilustrador, caricaturista, autor de banda desenhada e artista gráfico, mas dedicou-se também à fotografia, decoração, cenografia e mesmo ao cinema.

Das poucas distinções que recebeu, destaque para o Prémio Domingos Sequeira do Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo (SNI), a única atribuída por um organismo oficial, no ano de 1949.

O seu último trabalho publicado em vida saiu a 22 de fevereiro de 1961, em Os Ridículos.

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Sobre Stuart Carvalhais

Stuart Carvalhais é um artista que todos conhecem e admiram, pela prodigalidade da sua fantasia, o timbre do seu estilo inconfundível e a graciosa ironia, por vezes dramática, do seu espírito de observador.

É justo, portanto, que inauguremos com um trabalho seu a página que PANORAMA vai consagrar, regularmente, a reproduções de gravuras e desenhos inspirados em assuntos portugueses. (1)

 

Reprodução de obra de Stuart Carvalhais

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Uma Exposição - Stuart Carvalhais - O Stuart dos Jornais

Expôs alguns dos seus trabalhos no Sindicato dos Profissionais de Imprensa.

A crítica falou e só disse bem. Lastimou não ver mais trabalhos do curioso artista do lápis, mas Stuart não produz para expor, produz dia a dia, nervosamente, desenhos para publicar.

E foram esses, e só esses, os que mostrou ao público.

De Stuart há mais a esperar.

Todos nós lhe reconhecemos um grande valor, tão grande que roça, dizemo-lo com sinceridade, pelo talento. Stuart tem talento. (2)

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Duas caricaturas da autoria de Stuart Carvalhais (imagens cedidas por Alberto Conceição, de Vila Real):



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Antecedentes artísticos e contexto do seu nascimento em Vila Real

É geralmente conhecido que José Herculano Stuart Torrie de Almeida Carvalhais (1887-1961) nasceu em Vila Real e que deve ter vivido aqui durante muito pouco tempo. O próprio Stuart Carvalhais, nas últimas entrevistas que dá, em finais da década de 1950, é muito explícito quanto a estes factos.

Diz também que seu pai, embora nascido em Portugal, vivera os seus primeiros anos no Brasil; que era agrónomo; e que saíra de Vila Real para trabalhar numas minas de cobre em Zalamea La Real, em Huelva, onde se encontrava já um irmão dele.

Desconhecia-se, contudo, completamente o contexto familiar em que o seu nascimento ocorreu.

Um folheto impresso em 1885 (embora não datado) permitiu-nos avançar nesse conhecimento. Trata-se de uma espécie de circular anunciando a abertura do Colégio Stuart, na Quinta do Seixo, em Vila Real, acompanhada de um plano curricular, com referência explícita à direção exercida por D. Maria Isabel Stuart Torrie.

O pai de Stuart Carvalhais chamava-se José Joaquim de Almeida Carvalhais (1854-1919). É referenciado às vezes com o apelido do pai, Guedes, razão por que ao seu nome se acrescenta ocasionalmente Júnior, já que o seu nome era semelhante ao do pai.

Nasceu em São Miguel de Lobrigos, Santa Marta de Penaguião, e emigrou muito novo para o Brasil, protegido por um tio. Aí se formou ou preparou para a vida como agrónomo.

Chegado à idade militar, foi como oficial da Marinha para a Amazónia, onde foi gravemente ferido - circunstância que o trouxe de volta a Portugal cerca de 1880.

Algum tempo depois, talvez em 1883, entrou como empregado ao serviço dos Correios, situação a que não deve ter sido estranho o facto de seu pai (avô de Stuart Carvalhais) ter uma forte relação de amizade com um dos irmãos do Visconde de Chanceleiros, família de ascendência trasmontana, o bacharel em Filosofia Manuel António de Carvalho, que casara em Vila Real em 1860 com uma jovem de 15 anos, órfã do Dr. Sebastião Botelho Machado de Queirós.

(Anote-se, entre parênteses, que o Visconde de Chanceleiros, Sebastião José de Carvalho, foi uma figura grada do Partido Progressista - partido de que também o pai de Stuart Carvalhais insinuava ser militante --, por duas vezes ministro das Obras Públicas e, como tal, responsável pelos Correios.)

Esta amizade entre o avô de Stuart Carvalhais e Manuel António de Carvalho deve ter sido consolidada quando os dois descobriram e registaram em seu nome, em 1869, uma mina de substâncias de cobre e ouro junto ao Ribeiro da Aradeira, na freguesia da Campeã.

Vivia-se então um momento em que no país se fomentava a exploração mineira e em que na Câmara Municipal de Vila Real eram registadas 17 descobertas de minas, 11 delas na freguesia da Campeã.

O bacharel Manuel António de Carvalho foi, com intervalos em que exerce comissões de serviço fora de Vila Real, às vezes para acompanhar a vida política do irmão, administrador e diretor da Estação Telégrafo-Postal de Vila Real, pelo menos nos seguintes períodos: final da década de 1870, nos anos de 1883, 84 e 85 e nos primeiros anos da década de 1890. Reunia pois boas condições para arranjar ao filho do seu amigo emprego nos Correios em 1883.

Em 1884, José Joaquim de Almeida Carvalhais Júnior encontrava-se a trabalhar na Estação Telégrafo-Postal da Régua, nessa altura uma das mais importantes do país: basta dizer que expedia mais de 30.000 telegramas por ano, mais do que Viana do Castelo, Évora, Viseu, Santarém, Braga, Funchal, Setúbal e Beja. Só Lisboa, Porto, Coimbra e Faro registavam movimento superior à Régua.

Manuel António de Carvalho seria quase certamente também responsável pela nomeação em 1884 de José Joaquim Guedes de Almeida Carvalhais (avô de Stuart Carvalhais) para o lugar de agente ou correspondente da importante Companhia Geral de Crédito Predial Português, de que era vice-governador um outro seu irmão, Lourenço António de Carvalho.

No dia 12 de Janeiro de 1885 o pai de Stuart Carvalhais casa com D. Margarida Amélia Stuart Torrie, ausente e casando por procuração, em São Miguel de Lobrigos.

O casamento terá provocado a vinda da família para Vila Real, para onde o pai de Stuart Carvalhais seria posteriormente transferido da Régua e onde teria permanecido até Abril de 1888, tendo desempenhado, embora por um período possivelmente muito curto, o cargo de chefe da estação dos correios.

Foi também nomeado, enquanto esteve aqui, para promover o estudo da posta rural no distrito de Vila Real. Posteriormente, foi transferido para Vila Pouca de Aguiar, onde esteve pelo menos até Dezembro de 1888 a dirigir a Estação Telégrafo-Postal, vindo a Vila Real nessa altura para fazer concurso para 1º aspirante dos Correios.

No final do primeiro semestre de 1885, a família vem para Vila Real e instala-se na Quinta do Seixo. É hoje muito difícil saber exatamente onde, porque mais ou menos nessa altura havia 10 propriedades com esse nome.

Aí funcionou o Colégio Stuart, em regime de internato, semi-internato e externato. Era um colégio para o sexo feminino, que ministrava a instrução primária e os 1º e 2º anos de Francês, Piano, Canto, Bordado e Costura. Era dirigido por Maria Isabel Stuart Torrie, pianista distinta.

Deve tratar-se da avó materna de Stuart Carvalhais, embora tivesse uma filha com o mesmo nome, mas então com apenas 21 anos de idade -- o que não devia ser considerado suficiente para assumir as responsabilidades da direção de um colégio.

Um ano mais tarde, o colégio muda-se para o Largo do Rossio, nºs 8 e 10. Nessa casa nasceu, no dia 7 de Março de 1887, "pelas 10 horas da tarde", Stuart Carvalhais, que foi batizado no dia 10 de Junho na Igreja de São Pedro, sendo padrinhos o avô materno, José Vitorino Correia Guedes, e uma irmã da avó, Isabel Maria Stuart Torrie, que vivia em Cedofeita e constituiu procuradores para o efeito os sobrinhos, irmãos da mãe de Stuart Carvalhais, Maria Isabel e Gustavo Adolfo Torrie, este cabo do RI 13.

Durante a sua permanência em Vila Real, a mãe e a tia de Stuart Carvalhais, para além de certamente apoiarem as atividades do colégio, participaram em diversos saraus de beneficência, cantando e tocando piano, destacando a crítica local a mãe, Margarida Amélia Stuart Torrie de Almeida Carvalhais, uma mezzo-soprano que chegara a atuar no Porto, no Teatro e São João, quatro anos antes.

Nas entrevistas aludidas, Stuart Carvalhais refere ter muita facilidade no domínio das línguas, especialmente o francês, e revela que a sua primeira instrução foi feita no ambiente familiar.

Quanto ao sentido de humor e facilidade para a caricatura - convém recordar que Stuart Carvalhais foi um dos principais desenhadores da primeira geração modernista e um grande humorista e caricaturista -, talvez não lhes seja de todo estranho o facto de seu pai ter sido correspondente em Vila Real de um jornal humorístico e de caricaturas intitulado O Dragão, publicado no Porto, cujo primeiro número saiu em 20 de Abril de 1887, o que indicia alguma propensão para o humor.

Stuart Carvalhais viveu em Vila Real (e, admite-se, em Vila Pouca de Aguiar) entre 7 de Março de 1887, data do nascimento, e pelo menos o final de 1888, altura em que acompanhou os pais para as minas de cobre de Rio Tinto, em Zalamea La Real, província de Huelva, onde desde 1886 se encontrava já seu tio Francisco Guedes de Almeida Carvalhais, que, como seu pai (e eventualmente o avô paterno), trabalhou e/ou explorou diversas minas ao longo da vida.

A família regressou de Espanha provavelmente em 1893, indo o pai exercer funções como administrador da quinta do Visconde de Chanceleiros em Cortegana, Alenquer. De seguida vem para Montemor-o-Novo, onde o pai passou a explorar herdades que alugou.

Fixa-se finalmente em Lisboa, quando o pai, que há muito havia despertado para a arqueologia, se empregou como auxiliar do Prof. José Leite de Vasconcelos no Museu Etnológico, na qualidade de coletor-preparador.

Ao seu gosto pela arqueologia não serão estranhas não só a sua atividade mineira como as suas ligações, iniciadas em Vila Real, com Dr. Francisco de Sales da Costa Lobo, amigo de José Leite de Vasconcelos, médico, arqueólogo, professor e reitor do Liceu, recebedor da comarca, governador civil substituto, figura importante do Partido Progressista local, com quem a família de Stuart Carvalhais manteve durante o resto da vida relações estreitas, que hoje podemos redescobrir através dos cartões-de-visita que foi enviando de Cortegana, Montemor-o-Novo e Lisboa, locais onde sucessivamente se fixou. (3)

(1) “Panorama” – nº14 – Abril1943

(2) "Ilustração" - nº14 – 1932

(3) “História ao Café”, nº112 – 11 de março de 2003 (Museu de Vila Real)

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