Por terras transmontanas - impressões de viagens!

Cruzeiro da Boavista em Vila Nova de Campeã

"(…) Quem de Amarante sobe para Vila Real, depois de abandonar os últimos povoados, experimenta a mais viva surpresa que nos é dado frui,  quando a estrada começa a enroscar-se, em caracol, através da montanha, que dum e outro lado se levanta em duas encostas abruptas, tosquiadas de arvoredo, nuas até de penedia, recoberto o solo árido apenas de carqueja rastejante, sem uma urze, sem um ramo de silva, sem um fio de giesta.

À medida que se vai subindo, tem-se a impressão de que, se por um desastre nos precipitássemos ao longo da lombada escorregadia da serra, nada poderia deter-nos na queda, nem haveria um combro de terra a impedir que o nosso pobre cadáver se fosse esfarrapar, espapaçar, nos pedregulhos ponteagudos que, ao fundo, recobrem o leito do apertado talvegue.

E as duas vertentes, tão próximas uma da outra se elevam, e tão a pique, tão semelhantes, que parece que se tocam e por vezes se confundem.

Há nos livros escolares uma velha lenda, que mal me recordo já, mas em que figuram dois ferreiros que moravam, cada qual, no cume dum monte, e tão perto um do outro que um deles, zangando-se, atirou da sua forja com um martelo ao vizinho.

Ao passar naquele ponto, lembro-me sempre desta curiosa história, que parece ter sido inspirada a alguém que porventura atravessasse aquela parte do Marão.

Dobrada a serra, e ao aproximarmo-nos de Campeã [ver outra imagem do cruzeiro], a primeira povoação transmontana, a paisagem varia, tanto como os costumes, e descobre-se a certa altura, lá longe, Vila Real, que faz lembrar um ramalhete de flores no fundo de uma bandeja, sendo os rebordos as montanhas que de todos os lados a rodeiam, e que umas às outras se vão sobrepondo, até esgarçar-se no horizonte, numa nebulosidade acinzentada. (...)

Porto, 2 de Junho de 1915

S.M.”

Fonte: "Ilustração Portuguesa", 2ª série, nº 490 - 12 de Julho de 1915

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