A Tuna de Mondrões/Bisalhães – uma das Tunas do Marão
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A Tuna de Mondrões/Bisalhães em 1935 |
“Estivemos em
Bisalhães pela primeira vez a gravar a tuna em 1992, numa altura em que ela
integrava, como as fotografias documentam, alguns jovens que tinham sido
cativados para a prática instrumental pelos mais velhos elementos da tuna, numa
iniciativa inteligente e promissora, mas que infelizmente acabou por não
resultar, como vamos historiar.
As informações
que aqui vertemos resultaram essencialmente da entrevista que então fizemos aos
dois mais antigos membros da tuna, Querubim Ribeiro de Carvalho, nascido em
1912, e Joaquim Fernandes Fontes, nascido em 1925, ambos nados e criados em
Bisalhães, representantes das duas famílias que desde sempre foram os
principais fornecedores de tocadores da tuna, os Carvalhos e os Fontes, bem
como ao filho do último, Constantino Fontes.
Como grande e
importante centro oleiro que era (e ainda é), Bisalhães tinha quase toda a sua
população ocupada ou, pelo menos ligada, à arte da olaria.
“Eu sempre
fui carpinteiro (Querubim de Carvalho), mas os mais dedicavam-se a
oleiros e à lavoira. Todos tinham as suas terras. Os mais novos é que já são
funcionários" (entenda-se: são empregados). Cultivava-se batata, milho, vinho, centeio, hortas. "Naquele
tempo até se semeava cevada. Agora até os lameiros estão de velho” (estão
incultos).
Sobre a
antiguidade da tuna, diz-nos Querubim de Carvalho que já o seu sogro, António
Fernandes da Rocha (flauta) e dois irmãos, o Paulino (rabeca) e o Antero
(violão), desde novos faziam parte da tuna antiga, por volta do princípio do
século XX.
"Os
mais velhos nunca me disseram quando é que isto tudo tinha começado. Não sei se
de trás deles já haveria outros".
Esta é a
dificuldade de, na busca das origens destas tunas, lidarmos apenas com
depoimentos orais, que alcançam somente a distância temporal das suas memórias,
diretas ou indiretas.
Sugestões:
Querubim de
Carvalho começou a tocar bandolim na tuna aos quinze anos de idade, ou seja, em
1927. Recorda-se de ter aprendido música com o regente da altura, de seu nome
Biscaia, que era primeiro-sargento da Banda de Infantaria 13 de Vila Real e
vinha ensaiar a tuna. Os músicos quotizavam-se para lhe pagar.
Lembra-se que este
Biscaia compôs uma marcha (ou passo dobrado) intitulada Calisto (...).
Seguiu-se-lhe outro mestre, Bernardino Rodrigues Lopes, de Mondrões. Este compunha algumas peças musicais para o reportório da tuna.
Outras que ele ensinava eram das
partituras que mandava vir do Porto, do Castanheira, na Rua do Almada.
O reportório
era essencialmente constituído por valsas, marchas, contradanças, polcas e
fado.
A maior parte
do reporto rio que ainda hoje (1992) mantêm foi-lhes ensinada pelo mestre
Bernardino, e outra parte "já vinha de trás, de ouvido".
A tuna incluía,
nessa altura, violinos, bandolins, violões, banjolim e flauta. O violoncelo
compraram-no mais tarde na Folhadela, em segunda mão, a um elemento da tuna
dessa aldeia.
Nessa altura,
segundo os informadores, não havia por aqui construtores, pelo que compravam os
instrumentos no Porto, no Castanheira, à Rua do Almada, ou noutras aldeias onde
soubessem haver algum à venda em segunda mão.
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A Tuna de Mondrões/Bisalhães nos anos 50 |
A tuna era conhecida como Tuna de Mondrões, por ser daí o seu maestro, mas integrava músicos de Mondrões e de Bisalhães.
Contudo, a certa altura, os de Mondrões foram
desistindo e a grande maioria era de Bisalhães, razão por que exigiram ao
mestre Bernardino que viesse dar o ensaio a Bisalhães.
Como ele não
aceitasse a exigência, deu-se a célebre “desliga”, que ainda hoje continua a
ser, na memória dos músicos de Bisalhães, um marco de independência em relação
à sede da freguesia.
A separação
deu-se em 10 de janeiro de 1952 e Querubim de Carvalho compôs na ocasião uma
valsa que denominou justamente "Desliga" para assinalar o ato.
A própria letra
é de sua autoria e achamos interessante reproduzir nos discos que acompanham
este livrinho (...).
Resolveram
então os de Bisalhães arranjar uma sede para a tuna. Compraram o terreno e
construíram um casarão amplo, com um palco. Conseguiram pagar todas as despesas
da compra e construção desta sua sede "a fazer comédias".
Preparavam as
peças, anunciavam-nas e o povo acorria pagando bilhete de entrada:
"Leonardo, o pescador", "Homem de honra", "Pena de
morte", "Honra e dever", "Comédia das duas gatas",
"Comédia do criado distraído", "O heróico segredo", etc.
A "casa da
tuna" passou a servir não só para as comedias e entremezes, mas também
para os ensaios da tuna e para os bailes da aldeia.
Sugestões:
Depois, veio o gira-discos e intercalava com a tuna, enquanto esta descansava.
O último baile
de fim-de-ano que ali se realizou foi em 1987.
As épocas
apropriadas para as comédias e entremezes eram o Natal, o Entrudo e a Páscoa.
Antes do
espetáculo, faziam uma arruada para chamar o povo.
Chegavam a
levar as representações a outras aldeias, como, por exemplo, Arrabães, sobretudo
"na maré do Entrudo".
Só nessa época,
faziam sete representações: uma em sábado gordo, e duas em cada um dos dias
seguintes, até terça-feira gorda.
No fim das
comédias, havia sempre uma dança em palco, com trajos todos iguais (…).
Tanto quanto
conseguimos apurar, esta exibição com trajos iguais era semelhante, talvez a
mesma, à que, em quarta-feira de cinzas, se fazia pelas ruas (…).
"As
histórias (enredo) vinham nos livros e folhetos que comprávamos e quem nos
ensaiava era o Sr. Armandinho, que morava na cidade”.
Tratava-se de
Armando Fernandes Pinto, conhecido comerciante vila-realense, entusiasta da
cultura regional, furioso do teatro popular, que durante muitos anos foi a alma
e animação do arraial da Feira de S. Pedro.
Tal como as
outras tunas, a de Bisalhães tocava nas mais variadas circunstâncias: bailes,
leilões, casamentos, missas, procissões e arraial ("no coreto, no arraial,
para as pessoas bailarem").
Os informadores
nomearam algumas aldeias onde chegaram a tocar: Torgueda, Olo, Arnadelo,
Sirarelhos, S. Miguel da Pena, Arrabães, Fiolhoso, Vila Real (Senhora de
Almodena).
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A Tuna de Mondrões/Bisalhães: atuação em Vila Real, nos finais dos anos 60 |
No Entrudo, a
tuna fazia bailes e acompanhava as comédias, conforme acima referimos.
Em Quarta-Feira de Cinzas cumpria percurso ditado pela tradição: de manhã, começava a tocar no
cimo do povo e corria as ruas todas por aí abaixo até ao largo.
Depois de almoçarem,
fazia baile no largo da eira (isto sucedia, como é bom de ver, antes da
representação teatral).
As raparigas
tinham trajo apropriado.
Chamavam-lhe
dançar a Vareira, por ser a Vareira a música escolhida para o efeito.
Joaquim
Fernandes Fontes, especialmente dotado para a música, foi durante décadas o mestre
da Tuna de Bisalhães, coadjuvado por Querubim de Carvalho, com iguais dotes
musicais, mas de carácter modesto e discreto.
Este, como prolongamento
da sua arte de carpinteiro, dedicou-se sempre ao conserto de instrumentos
musicais e também à sua construção (especialmente violinos violões), tendo obtido bons
resultados, não propriamente comerciais, mas sobretudo de perfeição e
sonoridade.
A atestar a
musicalidade dos tocadores locais, citamos Joaquim Fontes: "Quando aparecia
uma moda nova, ele lia a pauta, nós orelhamo-la (expressão curiosíssima que
quer dizer captamo-la, memorizamo-la, de ouvido) e ao fim de duas ou três vezes
tocamo-la logo bem".
Voltámos a
Bisalhães em 1998 a fim de convidar a tuna a participar na Expo-98, integrada
no ciclo Sons da Tradição, que coordenámos.
Infelizmente,
porém, tal não foi possível, visto que, para nossa surpresa, a tuna já se encontrava
inativa e sem ensaios. Nada o fazia prever, mas aconteceu. (…)
Segundo relatos
que colhemos de várias fontes em localidades distintas, realizou-se no antigo
Teatro-Circo, em Vila Real, em 1935, um concurso de tunas organizado pela Câmara
Municipal, em que participaram as tunas de Mondrões (Bisalhães), Granja, Folhadela,
Torgueda, Lordelo, Borbela e Vila Maior, esta do concelho de Santa Marta de Penaguião.
Saiu vencedora
a Tuna de Mondrões/Bisalhães (…).”
Fonte: “Tunas do
Marão”, José Alberto Sardinha (texto editado)


